|
biblioteca exclusiva da univ. wharton

.
Profissionais
de marketing devem buscar a riqueza da base da pirâmide”
.
Para
os gerentes de marketing mais experimentados das maiores empresas
multinacionais do mundo, não há dúvida sobre quem são seus clientes:
as
populações dos países desenvolvidos e as classes médias e altas dos
países em desenvolvimento.
O
raciocínio é simples:
são
esses clientes os responsáveis pela demanda de produtos e serviços
caros, porque podem pagar por eles; como são receptivos aos avanços
tecnológicos, estimulam intelectualmente os executivos ansiosos por
conquistar sua atenção.
Mas,
e quanto aos pobres do mundo? Deles podem muito bem cuidar os governos e
as organizações sem fins lucrativos. Não vale a pena o desgaste de
tentar vender o que quer que
seja para essa gente.
Ou
será que vale?
C.
K. Prahalad,
professor de estratégia corporativa da University
of Michigan Business School
vê a questão de uma perspectiva totalmente distinta. Em livro de sua
autoria, The
fortune at the bottom of the pyramid: eradicating poverty through profits
(Riqueza na base da pirâmide: erradicando a pobreza por meio de lucros).
.
Prahalad
sustenta que as empresas multinacionais não
apenas podem ganhar dinheiro vendendo às populações mais pobres do
mundo, como também devem se esforçar para isso, como forma de diminuir o
fosso cada vez maior entre países ricos e pobres. No livro, um dos
primeiros volumes da Wharton
School Publishing,
um selo resultante da colaboração da Wharton
School com a Pearson
Education,
uma unidade de negócios da Pearson,
empresa internacional de mídia responsável pela publicação do Financial
Times.
.
A
argumentação de Prahalad em defesa da escolha dos pobres do mundo como
mercado potencial explica-se, antes de qualquer outra coisa, por sua
extensão cerca de 4 bilhões de pessoas, ou 2/3 da população mundial.
Vale destacar ainda que este mercado deverá aumentar, segundo
estimativas, para 6 bilhões nos próximos 40 anos, uma vez que os
maiores índices de crescimento populacional do mundo ocorrem entre os
pobres.
Apesar
do fato de que estas populações subsistem com rendas per capita anuais
inferiores a US$ 1.500, essa “base
da pirâmide”
representa um mercado estimado em vários
trilhões de dólares.
Juntas, nove nações em desenvolvimento:
China,
Índia, Brasil, México, Rússia, Indonésia, Turquia, África do Sul e
Tailândia possuem um PIB combinado muito maior, em termos de paridade
de poder de compra, do que os PIBs combinados do Japão, Alemanha, França,
Reino Unido e Itália. A base da pirâmide, segundo Prahalad, é a maior
oportunidade de mercado potencial da história do comércio.
O
autor interessou-se pela primeira vez pelo assunto em 1995. Na ocasião,
se perguntava como era possível que os negócios permitissem o
desenvolvimento de recursos tecnológicos de maneira tão extraordinária
enquanto tantos no mundo eram tão pobres. A experiência pessoal de Prahalad,
acumulada em suas viagens pelo mundo e nas consultorias dadas a empresas
multinacionais, levaram o autor a buscar por evidências de que as grandes
empresas poderiam ter um impacto significativo nas nações em
desenvolvimento..
Um
ponto fundamental do livro de Prahalad é o fato de que o esforço para
ajudar os mais pobres pode ser bem-sucedido em diferentes países e indústrias,
seja na área de saúde ou de finanças, e até mesmo em setores de
grande dinâmica, como bens de consumo e energia.
.
As
exceções, observa o autor, são os países essencialmente à margem da
lei, como a Somália e o Congo, bem como as indústrias radicalmente básicas
sobretudo as que se dedicam principalmente ao extrativismo, responsáveis
por grande número de empregos, mas que dispõem de pouco incentivo ou
competência para outorgar responsabilidades aos seus empregados.
.
Fora
isso, sua estratégia funciona em 90% dos casos.
O
autor espera que o livro tenha boa acolhida junto a um público bastante
amplo de executivos de grandes empresas, professoras de escolas de
administração, representantes, estudantes e agências governamentais de
desenvolvimento.
Essa
é a primeira vez que alguém expõe de maneira coerente de que modo o
setor privado pode ser parte integrante do desenvolvimento e da
transformação social.
Além
disso, o autor acrescenta que integrou uma comissão das Nações
Unidas
liderada pelo secretário-geral da entidade, Kofi
Annan, cujo
propósito era o de analisar o desenvolvimento do setor privado. A comissão
deverá apresentar em breve o seu relatório. Já é possível perceber, “o
impacto deste tipo de reflexão”.
.
O
autor insiste com as empresas multinacionais para que não raciocinem
unicamente em termos de lucros ao elaborar suas estratégias, produtos e
serviços destinados à base da pirâmide. Citando números das Nações
Unidas, destaca que:
os
20% mais ricos do mundo responderam por 70% do total da renda em 1960.
Em 2000, os mais ricos detinham 85% do total da renda, enquanto a fração
de renda correspondente aos 20% mais pobres do mundo caiu de 2,3% para
1,1%.
Toda
estratégia dirigida à base da pirâmide terá, necessariamente, de criar
empregos e melhorar os níveis de renda destes indivíduos, ajudando com
isso a desacelerar e, possivelmente, a reverter o abismo cada vez maior
entre ricos e pobres. Sem dúvida estratégias deste tipo poderão evitar
a deterioração social, o caos político, o terrorismo e a degradação
ambiental.
.
Um
dos principais motivos para que as multinacionais evitem a base da pirâmide
é que não é fácil fazer marketing para populações pobres.
De
modo geral, são pessoas que não dispõem de fluxo de caixa, têm pouco
acesso ao crédito e vivem em localidades rurais ou em favelas urbanas
que tornam complicados, se não impossíveis, os métodos tradicionais
de publicidade e de distribuição.
.
A
maior parte daqueles que se encontram na base da pirâmide acham-se
integrados à economia informal, e portanto não dispõem de registros
ou de escritura para seus bens. Portanto, serão necessárias abordagens
radicalmente diferenciadas para atingir estas pessoas. Várias destas
abordagens são descritas em estudos de casos no livro e resumidas
abaixo.
.
Sal,
sabonete e a Hindustan
Lever LIMITED:
uma
das maiores subsidiárias da Unilever, tem se revelado uma das empresas
cuja marca atinge de maneira mais eficaz os mais pobres da Índia e de
outros países em desenvolvimento. É a maior exportadora de produtos de
marca, tendo sido eleita pela Forbes
Global “a empresa que
mais atinge as famílias em todo o mundo”.
.
A
experiência de marketing da empresa no tocante a dois dos produtos de
consumo mais básicos sal e sabonete, revela algumas das estratégias
que podem ser usadas com sucesso junto à base da pirâmide.
.
Em
meados dos anos 1990, a divisão de Alimentos Populares da HLL percebeu
o potencial crescente para marcas de gêneros de primeira necessidade na
Índia e lançou o sal Annapurna no mercado de Andhra Pradesh, a título
de teste.
.
Classificado
como “sal puro”, a experiência com o Annapurna não foi muito
bem-sucedida, uma vez que, para os consumidores, quase todo sal é
considerado puro. Além disso, o Annapurna tinha pela frente um
concorrente de peso, o Tata,
que já havia reivindicado para a si o rótulo de pureza.
Contudo,
dois anos depois, o governo da Índia se viu obrigado a empreender uma
campanha rigorosa para combater um problema de saúde denominado “Transtorno
por Deficiência de Iodo”,
um dos principais causadores de transtornos mentais em todo o mundo e
responsável, entre outras coisas, pela ocorrência de retardamento mental
e de baixo Q.I.
Na
Índia, houve cerca de 70 milhões de vítimas deste transtorno, ao
passo que outros 200 milhões de indivíduos estavam ameaçados de
contaminação. Uma vez que todo o mundo, até mesmo os pobres, comem
sal de vez em quando, chegou-se ao consenso de que o sal iodado seria a
melhor fonte de iodo disponível.
Em
1997, o governo da Índia proibiu a venda de sal sem iodo. O problema, porém,
era que os métodos tradicionais de iodização do sal, de modo geral,
eram ineficazes em virtude do processo de lixiviação por que passava o
iodo com o decorrer do tempo, principalmente por causa das condições
primitivas de armazenamento e transporte vigentes na Índia.
O
Centro de Pesquisas da Hindustan Lever, uma das cinco maiores instalações
da Unilever dedicadas à pesquisa, passou a investigar meios de manter
intacto o conteúdo de iodo do sal em face das condições adversas do
país. Em vez de encapsular quimicamente o iodo com uma película de
proteção depositada sobre o iodo propriamente dito e a partícula de
sal, os pesquisadores desenvolveram um método para a proteção do iodo
em nível molecular, que o mantinha intacto até o momento em que era
liberado no ambiente ácido do estômago humano.
Resolvido
o problema tecnológico, a Hindustan
Lever voltou
sua atenção para o marketing do Annapurna,
agora reformulado. O público alvo das classes pobres eram as mães entre
25 e 40 anos responsáveis pela preparação dos alimentos e pelas compras
de itens comestíveis do lar. A mensagem era que o “iodo
estável” do
sal Annapurna
“não
se perdia”,
e por isso podia ajudar as famílias a permanecerem saudáveis. Embora o
sal Tata
continue a ser a marca dominante com 19% do mercado, a Hindustan
Lever ocupa
agora o segundo lugar já próximo do Tata,
com 14% de mercado, sendo que, no sul do país, já é a marca principal.
.
A
Hindustan
Lever empregou
uma estratégia mais ou menos semelhante
descoberta pelo marketing, de um benefício para a saúde no caso de outro
produto, o sabonete, o que permitiu à empresa aumentar suas vendas na Índia.
Embora a AIDS
e a SARS
tenham dominado os noticiários nos últimos anos, a diarréia, que ocupa
a 3ª posição entre as principais causas de morte do mundo, recebeu
pouca atenção.
Ironicamente,
embora a prevenção e a cura da AIDS e de doenças respiratórias sejam
extremamente difíceis, a maior parte dos casos de diarréia podem ser
evitados se as pessoas simplesmente lavarem as mãos com sabonete. Na Índia,
cuja participação nos casos de morte por diarréia no mundo é de 30%,
as pesquisas mostram que apesar de 95% dos lares indianos utilizarem
sabonete, só 30% fazem uso dele diariamente.
A
Hindustan
Lever há
muito tempo propaga na Índia os benefícios à saúde de sua marca centenária,
a Lifebuoy.
No início, a fórmula do sabonete tinha um forte aroma carbólico que era
associado à limpeza. Todavia, os benefícios do produto para a saúde
ficaram obscurecidos com o passar do tempo à medida que os concorrentes
também alardeavam os benefícios do seu produto para a saúde, além de
acrescentar a este discurso um elemento embelezador, sobretudo com a
introdução de mais fragrâncias florais.
Para
preservar sua posição de marca número 1 no mercado, a HLL reformulou
o Lifebuoy, dando a ele um perfume floral e mudando sua apresentação:
em vez de fabricá-lo em barras “duras” tradicionais, a empresa
optou por um processo de trituração e secagem que resultou em um
produto ainda mais duro. A mudança fez com que o sabonete durasse mais
tempo e produzisse mais espuma.
.
A
HLL adicionou também à fórmula o antibacteriano Triclosan, chegando a
um preço que os consumidores pobres pudessem pagar sem recorrer para
isso ao esquema tradicional de preços em que se incorpora uma sobretaxa
de custo ao produto.
Com
a nova fórmula em mãos, a HLL tinha de pensar em uma forma de vender o
produto a uma clientela constituída principalmente por moradores da zona
rural. Havia duas
dificuldades a vencer.
1ª
- a empresa tinha de mudar o comportamento
de seus clientes em potencial, que associavam o sabonete à remoção da
sujeira visível. Se as mãos não lhes parecessem sujas, não havia por
que usar sabonete. A presença potencial de milhões de organismos
infecciosos invisíveis não era levada em conta por estas pessoas.
.
2ª
- era o fato de que a maior parte dos clientes potenciais vivia em
aldeias sem acesso aos meios de comunicação de massa, como o rádio e
a televisão.
A
solução encontrada pela HLL foi contratar equipes de "facilitadores"
que percorreriam em duplas as
escolas das aldeias e, inicialmente, instruiriam os jovens entre 5 e 13
anos sobre os problemas que podem ser causados por germes invisíveis e
como eles podem ser quase que totalmente eliminados se as mãos forem
lavadas com sabonete. Em seguida, os pais e os anciãos das aldeias
recebiam informações semelhantes.
.
Com
base nos primeiros dados disponíveis, as vendas de sabonete da HLL estão
aumentando não apenas em áreas onde a empresa iniciou o marketing com
duplas de facilitadores, mas também
em outras partes da Índia. Os gerentes estão convencidos de que sua
oferta de sabonetes aos pobres estabelece uma diferenciação em relação
ao produto e abre oportunidades de crescimento por meio da utilização
mais freqüente do produto
.
.
CEMEX:
CRÉDITO E CONCRETO: -
Ao longo da história, o crédito comercial jamais esteve disponível aos
pobres. Contudo, de acordo com os economistas, ele é componente
fundamental de qualquer economia de mercado.
.
O
acesso ao crédito nos EUA permite que até mesmo pessoas de posses
modestas comprem itens de vulto, como casas, carros e freqüentem cursos
pagos.
.
A
Cemex
é a maior fabricante de cimento do México e a 3ª maior empresa do setor
no mundo. Trata-se de uma empresa de tecnologia sofisticada, cuja vantagem
competitiva decorre de uma infra-estrutura de distribuição que monitora
o movimento de cada caminhão em tempo real, para assegurar que seu
produto seja entregue no prazo previsto. A empresa vende cimento em dois
mercados distintos:
para
a indústria de construção e para clientes que fazem uso direto do
produto. Durante a crise econômica do país em 1994 e 1995, a Cemex viu
suas vendas para a indústria de construção despencarem em 50%,
enquanto as vendas no mercado de uso direto tiveram quedas que oscilaram
entre 10% e 20%.
A
empresa decidiu então não ser mais refém dos ciclos da construção
civil, e passou a enfatizar o mercado de uso direto do produto. A Cemex
percebeu que a principal diferença entre os dois mercados era a receita média
por cliente. Vendas modestas, porém estáveis, a indivíduos com níveis
de renda inferiores a US$ 5 ao dia, geravam receitas extraordinárias.
Uma
pesquisa de mercado mostrou que a maior parte das vendas de cimento para
o mercado de uso direto destinava-se à construção de moradias de um cômodo
apenas, que podia ser um acréscimo a uma estrutura já existente ou o
início do que, no fim das contas, seria a casa de uma família.
Era
óbvio que se os clientes que faziam uso direto do material em questão
tivessem acesso ao crédito, eles poderiam se dedicar mais integralmente
à construção, e com uma freqüência maior, do que se tivessem de
esperar até ter condições de pagar pelo preço total do cimento de uma
única vez. Em 1998, a Cemex
lançou um programa experimental denominado Patrimonio
Hoy,
cujo propósito era permitir que pessoas pobres pagassem pelos materiais
de construção e pelos serviços necessários para a realização de
melhorias em suas casas.
O
programa concentrou-se inicialmente em regiões específicas onde a
renda média das famílias era de cerca de US$ 5 a US$ 15. Os
gerentes e representantes comerciais saíram às ruas e formaram grupos
de mulheres tradicionalmente responsáveis pela poupança e pelas
compras nos lares mexicanos compostos de três indivíduos, para
conferir ao empreendimento um caráter de sociedade.
.
Os
três membros dos grupos formados concordaram em se revezar na coleta de
pagamentos de valores de pequena monta efetuados por cada um deles para
a formação de uma poupança com a qual comprariam cimento.
.
Formadas
as sociedades, elas eram visitadas por um consultor técnico, ou
arquiteto, que, por uma pequena taxa, ajudava os membros a decidirem que
finalidade dariam ao próximo cômodo a ser construído, de que modo
seria projetado e quanto de
material seria necessário.
No
final de cinco semanas, a Patrimonio
Hoy fez a
primeira entrega de matéria-prima, estimada em dez semanas de coletas
realizadas. O programa, portanto, concede cinco semanas de crédito aos
membros da sociedade, fortalecendo com isso a credibilidade do grupo em
meio à comunidade.
.
Se
os membros da sociedade permanecerem comprometidos com o programa, o crédito
recebido sob a forma de matérias-primas ainda não pagas aumenta. No
segundo período de dez semanas, por exemplo, a matéria-prima é entregue
depois da segunda semana, garantindo assim, na verdade, oito semanas de crédito.
.
As
margens dos distribuidores da Cemex
que participam do programa Patrimonio
Hoy são, via
de regra, menores 12%, em alguns casos do que os 15% em média do negócio.
Todavia, o entusiasmo dos distribuidores não é menor por causa disso,
uma vez que margens menores são mais do que compensadas pela demanda estável
por cimento e outras matérias-primas, como areia e cascalho.
Muito
embora a realização de negócios com base na concessão de crédito a
uma população de baixa renda, sem contracheques
regulares, possa parecer mais arriscado do que os modelos tradicionais
de empréstimos, os gerentes da Patrimonio Hoy dizem que os riscos são,
na verdade, muito baixos.
.
A
taxa de inadimplência, até o momento, tem sido inferior a 0,5%, o que
é conseqüência, em parte, do compromisso dos membros da sociedade com
o grupo.
Depois
de três anos de operação, a Patrimonio
Hoy contava
com 36.000 clientes e mais de US$ 10 milhões em créditos
concedidos. A base de clientes, segundo informações, vem crescendo a uma
taxa de 1.500 a 1.600 ao mês.
.
..
Fazendo
contato com os pobres: - Os
avanços tecnológicos, sobretudo nas áreas de computação e de comunicações,
parecem ocorrer quase que totalmente no mundo desenvolvido. É certo que a
Índia e algumas ilhas do Caribe são fornecedores de mão-de-obra para
sofisticados call centers e, no caso particular da Índia, existe ali uma
indústria próspera de desenvolvimento de software. Contudo, os
empregados destas empresas têm, de modo geral, excelente preparo
educacional e provêm dos extratos de classe média ou de segmentos
afluentes da sociedade.
Os
habitantes das favelas urbanas e das aldeias campesinas nunca foram
considerados alvos do mercado de produtos ou serviços tecnológicos
avançados.
Contudo,
no momento em que a tecnologia tornou-se acessível a estes indivíduos, Prahalad
deparou com membros da base da pirâmide dispostos a aceitá-la. Em
Bangladesh, empreendedoras com telefones celulares prosperam rapidamente
cobrando por minuto dos demais habitantes daquela localidade pelo uso de
seu aparelho celular. Na verdade, Prahalad
vê na difusão dos aparelhos sem fio a prova do tamanho e da viabilidade
do mercado da base da pirâmide.
Em
fins de 2003, por exemplo, a China tinha uma base instalada de 250 milhões
de aparelhos celulares. O mercado para os aparelhos sem fio na Índia
era de cerca de 30 milhões de linhas em operação e crescia a uma taxa
de 1,5 milhão ao mês.
Onde
houver conectividade, será maior a eficiência das ocupações
tradicionais. Transcorridos três meses desde que foram instalados PCs em
algumas aldeias indianas, os agricultores tomavam decisões sobre o
plantio com base nos preços futuros cotados pela junta comercial de
Chicago. Em Kerala, na Índia, imagens de satélite de cardumes de peixes
são descarregadas em PCs da aldeia e, em seguida, lidos e interpretados
por mulheres que orientam então seus maridos sobre onde pescar.
Os
homens, ao regressarem do trabalho, recorrem a seus celulares para
checar os preços em vários portos da costa até conseguirem as
melhores ofertas pela pesca do dia.
Para
Prahalad, todos estes exemplos mostram que há soluções de mercado para
o problema da pobreza. A tarefa que ele coloca em seu livro para as
empresas multinacionais consiste em romper com a lógica dominante,
segundo a qual os pobres do mundo não passariam de uma diversão para os
governos e as organizações sem fins lucrativos.
Trabalhar
com os mercados da base da pirâmide desafiará muitos dos pressupostos
que os gerentes de grandes empresas desenvolveram ao longo dos anos no
tocante, por exemplo, à embalagem, preços, marketing e distribuição.
Os
resultados de tais esforços não somente serão compensadores para as
grandes corporações e para os consumidores, como também contribuirão
com soluções para os graves problemas políticos e ambientais que
desafiam o mundo desenvolvido.
...
|