Um
dia, através da floresta virgem, um bezerro voltou para o seu
curral distante, a exemplo dos bons bezerros. No seu trajeto, fez
uma picada tortuosa, tal como todos os bezerros.
Passaram-se trezentos anos e esse bezerro já não mais existe. Porém,
deixou atrás de si o seu rastro. Sobre o seu rastro, um
carneiro-guia passou seguido por todo o rebanho. E, desde esse dia,
sobre montes e planícies, foi se abrindo um caminho através da
velha floresta.
Muitos homens seguiram pelo mesmo caminho, indignados pelo fato de
ser tão sinuoso. O caminho tornou-se uma alameda, que se encurva,
dobra e redobra. A tortuosa alameda transformou-se numa estrada,
onde pobres cavalos, arqueados sob pesadas cargas, troteavam penando
ao sol ardente e andavam três milhas para avançar uma. E, assim,
durante três séculos, todos seguiram as pegadas do bezerro.
Os anos passaram rapidamente e a estrada converteu-se numa viela de
aldeia. E, sem que os homens percebessem, da viela foi feita uma
movimentada via pública de cidade. E logo tornou-se a rua central
de uma famosa metrópole.
Durante todo esse tempo, os seres humanos se submeteram às pegadas
do bezerro. Por esta corcoveada trajetória desenvolveu-se o tráfego
de um continente. Centenas de milhares de homens se orientam por um
bezerro morto há três séculos. E ainda seguem seu tortuoso
trajeto, e em cada dia perdem uma centena de anos, tal a reverência
que tributam a um precedente estabelecido.
Uma profunda reflexão esta fábula poderia ensinar, pois os homens
se inclinam a seguir cegamente as pegadas do bezerro imaginado,
trabalhando de sol a sol no afã de imitar o que os outros fizeram.
Só pisam pistas já batidas, oscilando para dentro e para fora,
para diante e para trás. Fazem do caminho do bezerro uma rota
sagrada, pela qual se movimentam durante toda a vida. E como riem os
antigos deuses da floresta, que testemunharam o andar incerto do
bezerro primitivo!
.
.
Ah!
Quantas coisas esta história poderia ensinar
Sam
Walter Foss - texto adaptado por Hamilton Bueno