Um
executivo de construção civil canadense estava feliz por estar em
Paris com sua filha que estudava francês na Sorbonne. Mais feliz,
ainda, estava por ter acabado de negociar um contrato multimilionário
com um potentado árabe. O jantar de comemoração estava em andamento.
O canadense, como anfitrião, trouxe sua filha. O árabe entendeu
tratar-se de um atraente presente. O acordo de negócios terminou, do
lado canadense, com "os grosseiros avanços sexuais" feitos
pelo árabe em relação à sua filha... Do lado árabe, o negócio
acabou com o soco, nada convencional, que o canadense lhe aplicou no
queixo.
.
Em Londres, um grupo de homens de negócios americanos estava
tentando acertar um difícil problema com um grupo de ingleses, em uma
mesa de conferência. Ambos os grupos estavam ficando exasperados com
seus adversários. Os ingleses insistiam que o problema fosse
"colocado na mesa". Os americanos, por sua vez, com igual ênfase
se recusavam a fazê-lo. Só depois descobriram que em inglês londrino
"to table" quer dizer discutir e agir sobre um problema,
enquanto em inglês americano, que dizer adiar o problema...
.
Em Leningrado, um argentino, disposto a vender produtos agrícolas,
foi levado a uma protocolar visita a monumentos da II. Guerra Mundial,
antes de iniciar as negociações. Ele viu, ouviu e manifestou um
interesse bem-educado. Depois que os russos esfriaram as negociações,
por acaso descobriu que os estrangeiros devem manifestar inequívocos e
profundos protestos de horror e solidariedade diante dos terríveis
sofrimentos inflingidos aos russos durante a II. Guerra Mundial.
Estas estórias ilustram um ponto importante a ser aprendido por
todo homem de negócios no âmbito internacional: a consciência das
diferenças culturais pode ser a diferença entre o sucesso e o
fracasso. O fracasso nessas estórias vem no fim.
O sucesso advém de uma consciência clara de como as outras
pessoas pensam e agem no estabelecimento de relações de negócios,
desde seu início.
Homens de negócios devem estar sintonizados para onde se manifestam as
diferenças culturais e quais os seus efeitos no processo de negociação.
Quando a negociação funciona, os dois lados ganham. Esta é a meta.
Para que isso funcione no comércio internacional de hoje, o negociador
bem sucedido é aquele que leva em conta os fatores culturais.
Diplomatas de carreira há muito reconhecem esses fatos. Harold
Nicholseon, um grande político inglês, escreveu em seu livro
"Diplomacia", em 1939, que "existem certos padrões de
negociação que podem ser considerados permanentes e universais. A par
desses, entretanto, há notáveis diferenças causadas por caráter
nacional, tradição e rituais".
Todo mundo acena sobriamente quando essa afirmação é citada,
denotando uma compreensão dessa peça fundamental de sabedoria.
Praticamente, todos que atuam transculturalmente aceitam o acerto dessa
proposta alternativa e equilibrada - há similaridades e há diferenças.
Fundamentalmente, somos todos seres humanos, seja qual for nosso
contexto cultural e como seres humanos temos certos padrões em comum,
aplicáveis independentemente do tom que possam assumir as negociações.
Por outro lado, naturalmente, há diferenças culturais significativas
que trazemos conosco à mesa de negociação, e que afetam nossas
atitudes e nossos procedimentos. Naturalmente ambos os lados desta
verdade elementar devem ser considerados.
Mesmo o observador eventual "sabe", por exemplo, que à medida
em que prosseguem as negociações, todos, independentemente das
origens culturais, querem ser respeitados e levados a sério. Todos têm
seus objetivos e querem vencer. Quase todos estão dispostos a fazer
algumas concessões para alcançar acordos. As realidades transcendem às
culturas. Mas o negociador inteligente também aceita as diferenças
como parte do processo.
Ele "sabe" que um "alemão típico" tenderá a
considerar a oferta de muitas opções como um sinal de fraqueza da
outra parte. Ele "sabe" que um japonês "típico"
coloca muita ênfase no status da pessoa com quem está negociando. Ele
"sabe" que a amistosidade, a hospitalidade e a informalidade
de um americano "típico" não têm nada a ver com sua maneira
de conduzir uma negociação.
O negociador em contexto transcultural deve prestar atenção nas
semelhanças, assim como nas diferenças. Decorre daí a pergunta
crucial:
Não parece ser muito prático e, felizmente, não é de fato
necessário que se o faça. O que é prático e necessário é uma
compreensão do fenômeno e do processo da negociação. Deste modo terá
um referencial, uma sistemática de trabalho que propicie uma visão das
diferenças culturais à medida em que se evidenciam durante o processo
da negociação. Este referencial emerge da própria definição de
negociação.
Se a natureza e os passos no processo da negociação são conhecidos, há
um arcabouço conceitual que denuncia as semelhanças e diferenças
culturais presentes no comportamento dos negociadores, na medida em que
ocorram em uma situação concreta.
Estabelecemos uma definição:
- "Negociação é um processo através
do qual duas ou mais facções que tenham interesses em comum e
conflitantes expõem e discutem propostas explícitas acerca dos termos
específicos para um possível acordo".
Resultam dessa definição quatro tópicos em que semelhanças e diferenças
devem ser consideradas:
Os
dois primeiros situam-se mais no nível das idéias. Os dois últimos
estão mais no nível da ação.
.
Os negociadores de ambos os lados devem estar conscientes de seus próprios
vieses culturais na medida em que possam surgir nesses quatro aspectos
do processo. No mundo atual, simplesmente não é possível que seja
apenas responsabilidade de alguém (seja quem for este alguém)
manter-se sensível aos padrões culturais, de modo que apenas esse alguém
possa "compreender" e se adaptar às maneiras
"estranhas" dos outros. Deve haver uma reciprocidade entre as
pessoas no pavor ou no encanto pela cultura do seu adversário.
A questão é mais abrangente. O negociador atual tem consciência dos
vieses culturais de sua origem, assim como dos de seu oponente. Se, de
fato, sabe negociar, pode administrar esses vieses na medida em que
ocorram nos aspectos básicos da negociação.
Consideremos os dois tópicos no nível das idéias: interesses comuns e
interesses conflitantes. Afinal, esta é a razão pela qual os
negociadores estão à mesa. Ambos têm interesses comuns e
conflitantes. A questão é se as diferenças culturais fazem tanta
diferença quando interesses importantes estão em jogo.
Em geral, os interesses comuns transcendem às diferenças culturais e,
até mesmo existem independentemente dessas diferenças. Os negociadores
bem sucedidos identificam esses interesses em termos de senso comum.
Eles se perguntam:
"Que temos em comum nessa situação?"
Eles
sabem, no fundo de suas mentes e do processo de negociação, que esses
interesses comuns são típicos: o objetivo de lucro, evitar problemas a
longo prazo, fazer "boa figura" diante dos familiares, deixar
as portas abertas para futuras negociações etc. Essas semelhanças são
transculturais e os negociadores bem sucedidos não se esquecem delas.
Ninguém se prejudica por lembrar-se ou ser lembrado de que compartilha
de alguns interesses com os outros - isso é humano. Pelo simples fato
de que as partes envolvidas, por definição, não se sentem muito à
vontade nas negociações transculturais, esses interesses comuns têm
que ser considerados e reconhecidos. Dar-lhes a ênfase adequada e
permanente é responsabilidade que toca aos parceiros em uma negociação.
Quando os interesses conflitantes são examinados, o negociador bem
sucedido não só encara os pontos em conflito como continuamente se
questiona sobre se sua origem é "normal" ou devido às
diferenças culturais.
Devem-se esperar os conflitos normais acerca dos preços, controle de
qualidade, prazos de entrega, planos de pagamento etc. A razão de sua
presença é resolver esses problemas e atender aos interesses comuns.
Alguns conflitos de interesse podem surgir de diferenças culturais, o
que ambos os negociadores devem ter em mente. O perigo está em
localizar erradamente a origem desses conflitos.
Um fabricante ocidental de máquinas agrícolas, por exemplo, ao
negociar com distribuidores indianos não deve presumir, gratuitamente,
que o conflito é devido a questões de preço.
A ênfase do indiano na competição e na necessidade premente pode,
muito possivelmente, derivar de uma visão do mundo, baseada em sua
experiência cultural de escassez e limitação de recursos. O conflito
de interesses, neste caso, pode ser mais uma questão de experiências
culturais de escassez e de fartura, que uma questão de preço para cada
um dos contendores.
Neste caso, como aliás na maioria dos casos de negociação, o
requisito principal para o sucesso é a compreensão do ponto de vista
do oponente. Devemos compreender claramente o modo de pensar e de agir
de pessoas de diferentes países para que possamos distinguir as divergências
verdadeiras daquelas que decorrem de vieses culturais. Em qualquer
negociação, os conflitos de interesses podem ou não estar baseados em
diferenças culturais.
Os outros dois pontos que decorrem da definição de negociação estão
no nível de ação: discussão e acordo. Esses termos se referem às técnicas
de negociação, à maximização dos interesses comuns e à minimização
dos interesses conflitantes, de modo que a negociação resulte em ganho
para ambos os parceiros.
Esses estágios de discussão e acordo são normalmente entendidos pelos
negociadores em termos de quatro estágios em que na prática evolui uma
negociação. Isso eqüivale a afirmar que, atualmente, quase todos os
negociadores bem sucedidos devem entender (e entendem) que as ações de
desenvolvem em quatro fases. Um entendimento compartilhado dessas fases,
independentemente das origens culturais, é aquilo que os negociadores têm
em comum.
Esses quatro estágios são os seguintes:
4) Clarificação, Ação final,
Avaliação e Controle.
O que é culturalmente influenciado e, às vezes de muitos modos
significativos, são as expectativas que os negociadores possam ter
quanto à maneira "normal" de desenvolver o processo da
negociação. A questão, que é responsabilidade de cada negociador, é
verificar o que está ocorrendo em cada uma dessas quatro fases e as
diferentes expectativas ligadas às diferenças culturais.
Na etapa de abertura (estabelecimento de uma relação pessoal adequada)
os americanos, por exemplo, tendem a dispender muito menos tempo que os
japoneses. Os japoneses têm a expectativa de que é normal dispender um
tempo considerável e uma boa soma de dinheiro para estabelecer uma relação
harmoniosa com aqueles com quem tencionam fazer negócios.
Alguns finlandeses tenderão a comportar-se de um modo muito formal e
silencioso nessa fase e esperam que o relacionamento e a fase de exploração
evoluam numa semana. Os russos são notórios por misturarem negócios
(e apenas negócios) com vodka.
Para os japoneses é normal perguntar
muito e falar o mínimo, e esse mínimo é dito de maneira ambígua na
fase de exploração. Eles tendem a firmar suas intenções à medida em
que juntam as informações e ouvem as ofertas e propostas.
Os alemães
tendem a superestimar o entendimento técnico do parceiro, a serem mais
diretos e francos nessa fase, o que, com freqüência, faz os japoneses
sentirem-se mal.
Na fase de apresentação, pode parecer normal para muitos londrinos
discordar abertamente na medida em que o oponente faça um esforço para
moldá-los ou use técnicas agressivas - suas normas culturais
estabelecem que o desacordo não atinge as relações pessoais e a
persuasão agressiva é uma habilidade valorizada.
Os japoneses, que já deram ênfase à etapa anterior, procuram evitar
confrontações, tendem a não requerer nem esperar persuasão e, muito
provavelmente, manifestarão um considerável silêncio nessa fase.
Está claro que ninguém vai muito longe na negociação se tenta
persuadir na base do estereótipo, confundindo o comportamento de
vendedores de carros usados, antiquários e feirantes com uma negociação
para valer.
Há, então, o estágio final -
Clarificação, Ação final, Avaliação
e Controle.
Os americanos, por exemplo, tendem a pensar que é normal
fazer concessões ao longo do processo, de modo que a ação final para
eles tenda a constituir-se num sumário dos itens em que foram feitas
concessões em termos de interesses conflitantes.
Os japoneses tendem a
fazer todas as concessões ao final do processo. Pode parecer aos outros
que o acordo é feito de maneira abrupta e sem muita consistência.
De
modo diferente, os soviéticos, com freqüência, ouvem as concessões
do outro e depois procuram adiar o acordo por acharem que o tempo,
inevitavelmente, trabalha a seu favor. É uma aplicação prática da
teoria do materialismo dialético, segundo a qual o adversário fará
ainda mais concessões se houver uma demora significativa.
Quem está "certo" nessas ilustrações é algo que pode ser
discutido eternamente - nunca haverá uma conclusão. O certo é que as
pessoas de diferentes culturas têm diferentes expectativas sobre o que
deva ser considerado comportamento normal na prática das várias fases
do processo de negociação".
.
Flexibilidade e receptividade de um lado tendem a provocar sempre
a
reciprocidade no oponente.
.
O negociador ágil vê contrastar essas diferenças culturais com o
processo de negociação em si. Quanto mais os parceiros conhecem o
processo, tanto mais podem tornar-se, mutuamente, conscientes das
diferenças culturais quando elas surgirem e, então, poderão lidar
adequadamente com elas. O entendimento é o nosso objetivo.
.
Entender o processo de negociação. Estar alerta para as sutis diferenças.
Os alemães usam a expressão:
"Andere
lande andere sitte"
(cada terra tem seu uso).
Os
americanos preferem: "When
in Rome, do as the Romans do"
(Em Roma aja à maneira dos romanos).
Em
negociação, justamente, aprende-se à maneira dos romanos, observando
e ouvindo.
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